Eis aqui um desabafo... (parte II)

05-12-2010 00:32

   Chega-se ao dia de hoje, mais precisamente às 22:45 de 02/12/10, quando estou indo pegar ônibus para vir para casa e encontro esses meus amigos de infância, também chegando ao ponto de ônibus para ir para suas respectivas casas. Primeiramente, não reconheci eles. Estavam vindo em três. Dois amigos de infância, e outro que também conhecia mas mais por nome, do antigo colégio. Ambos estavam saindo daquele colégio em que eu estudava antes, no ensino médio a noite ( que convenhamos, se não for o pior ensino médio dessa cidade está perto disso! ). Minha primeira visão, isto ao longe, foi de um menino acendendo um cigarro. Não sabia se eram eles. Mas, quando cheguei perto, tive a certeza que eram e fui cumprimentá-los. Assim, cumprimentei animado, simpático. Mas logo de cara, vi que eles estavam muito devagar, com cara de bobo, um pouco lerdos. Já tive a certeza de que realmente eles tinham fumado maconha. Um destes meus amigos, estava mais esperto, meio cauteloso, mas é o jeito dele quando ele vê que algo aperta pro lado dele. Era ele que estava acendendo o cigarro, entretanto o cigarro não estava mais na mão dele. Ah, com certeza deve ter jogado pra eu não ver, pois ou era cigarro mesmo ou era um baseado. A minha vó é a melhor amiga da mãe deste menino, amigas mesmo. No desenrolar da conversa, conversa vai, conversa vem, tudo ficava mais irreal pra mim. O outro menino era um garoto que, entre todos, era o meu melhor amigo. Esse estava mais falante comigo e desenvolvia mais a conversa. Mas era o que estava mais lerdo e, digamos, mais debilitado. Um menino que antes era vivo, era esbelto, era de certa maneira mais ativo, passava a visão agora de um menino chapado, maloqueiro e meio largado. Você leitor, deve estar tendo a visão que eu estava no meio de maloqueiros, sujos, mal pentiados e tudo mais. Mas não, eram meninos arrumados até, de certa maneira todos educados, que tinham família. Mas com cheiro de droga. Conversando, descobri a falta de perspectiva de vida. Um estava trabalhando meio que arranjado em um local de vendas de não sei o que, outro não estava trabalhando por que queria algo melhor, mas falando que não estudava nada e quem sabe reprovaria. Contaram que outro menino estava trabalhando de cobrador de ônibus. Com todo respeito àqueles cobradores de ônibus, que conheço muitos, que sustentam família e que ganham seu dinheiro muito honestamente, guerreiramente. Mas não conheço um que não fale que era melhor ter estudado para fazer faculdade e fazer outra carreira, lamentando que não pensaram nisso quando eram jovens. O menino que trabalha lá tem 18 anos, e não tem a mínima vontade de estudar e fazer algo a mais.

   Conheço a mãe, pais e irmãos de todos. Acompanhei desde cedo, mesmo que com olhar inocente, o que muitos faziam para colocarem o filho na escola e conseguir com que estes estudassem. Sei o esforço que muitos fizeram. Mas quebro o coração ao ver rapazes, antes meus amigos, no fundo do poço e com caminho completamente desviado e sem rumo.

   O que mais me dói e dói mesmo é imaginar, por um momento, que eu poderia hoje estar andando com estes mesmos rapazes. É imaginar que sim, eu poderia estar naquele momento em que encontrei eles do outro lado, fumando um baseado e com cara de chapado no ponto de ônibus. Não cheguei a chorar, mas o sentimento aqui dentro faz com que isso não se torne impossível. Não sei se é porque eu saí de uma classe mais baixa de vida, quando estudava em colégio público, e fui para um ambiente diferente na elite de Curitiba que consigo enxergar tudo isso e ter um ponto de vista diferente. Mas é muito estranho. Claro, agora me olho no espelho e me comparo a eles. Me sinto bem, porque pareço bem nesta comparação. Estou ainda vivo, ainda esbelto, ainda ativo e sei que vou sempre permanecer assim. Mas e eles? O que a vida prepara pra esses meninos que nem sabem o que a vida está fazendo com eles? Quando penso nisso, minha cabeça entra em um grande conflito, se debatendo com a imagem daqueles meninos que jogavam futebol na areia, brincavam no parquinho e ainda dependiam da permissão da mãe pra sair pra fora do condomínio com aqueles meninos que falavam torto e mole, tinham cheiro de maconha e que não conseguiam enxergar nenhum tipo de futuro para as suas próprias vidas.

   Geralmente se fala na televisão daquelas histórias pesadas, com filhos roubando nas ruas pra fumar, batendo em mães, mendigos e tudo mais, tráfico pesado. Mas aqui não, essa aqui é uma história muito menos pesada, com filhos com cara de mauricinho, tênis de marca e boné de marca, classe média, não muito dinheiro mas também não muita pobreza, e fatos que acontecem com amigos que um dia dividiram histórias, amizades e diversão e que hoje vive uma realidade completamente diferente da minha. Você passaria na rua por eles e não diria que são fumantes de maconha. Eles não devem fumar pesado, fumar muito, devem só fumar maconha e beber bastante vodka/cachaça com refri, mas tudo e todos os seus atos refletem de alguma maneira na sua vida. Pode ser que as conseqüências disso não apareçam agora. Mas um dia aparecerão. Uns até falam “ah, é só um baseadinho de vez em quando...”, mas eu duvido muito dessa filosofia. Muitos agem como se não houvesse amanhã, como se tudo que fizerem não terá conseqüência, mas tem. Quem sabe não seja ( numa hipótese bem absurda ) o baseado em sua mão o motivo desse relaxamento de vida, mas são princípios, uma hora baseado é legal, outra hora bebida é legal, outra hora andar armado é legal ( diga-se de passagem que tenho pessoas próximas, não amigas mas próximas, que começaram com a maconha, foram pra cocaína e agora andam armado traficando, tudo isso aconteceu em 1 ano! ), outra hora traficar é legal, só por brincadeira. E quando se vê, está com 30 quase 40 anos, ganhando um salário mínimo, sem nenhuma perspectiva e conquista de vida, não fez metade do que você queria quando criança na sua vida e está com o pulmão e o sangue funcionando como se tivesse 80 anos de idade.

   Todo o meu sentimento de “ter uma história de vida” se fez em choque quando vi meus amigos lamentavelmente debilitados naquela esquina do ponto de ônibus. Quando você vê os dois lados da história, você as contrapõe e vê como está a situação. Uns podem até falar “ah, estavam só um pouco chapado”, mas não, aquilo foi deprimente. Eu, se me visse algum dia naquele estado, teria vergonha de mim mesmo. A vida apronta algumas dessas pra gente, mostra que todas as história tem dois lados ou mais lados a serem percorridos. Na sua frente tem portas, e cada porta te leva a algum caminho. A vida só põe a sua frente estas portas, é você quem as abre. Hoje, eu levei um grande choque na minha vida. Digamos que a vida me proporcionou a visão de uma outra porta, porta esta que lá atrás eu escolhi não seguir e escolhi seguir por outra porta. Ela me mostrou como que eu poderia estar se tivesse seguido tal caminho, se tivesse feito diferentes escolhas no meu passado. Enxerguei e vi que realmente fiz o caminho certo, mas que nem todos escolhem o caminho correto a ser seguido. Hoje tive contato com a parte mais cruel da vida quando se diz respeito ao destino. O que aconteceu é que me deparei com um grande espelho, espelho esse que mostra o que eu sou e o que eu poderia ser. Uma parte de mim ficou feliz, pois demonstrou que peguei o caminho certo ( graças à Deus! ) e que estou trilhando o rumo certo para conseguir viver a vida com que sempre sonhei e que acredito que mereço. Mas a outra parte de mim quebrou-se em pedaços quando tive contato com a realidade nua e crua, pura e sem maquiagem, e percebi que aqueles que dividiram expectativas, idéias e um pedaço de suas vidas comigo mergulham em um poço que cada vez é mais fundo e que muitas vezes não há tempo de sair dele.